3.7.15

FINGER FOOD™




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PEIXE

Cortina. Sobre um fundo minimal, ouve-se um sample de meio segundo da música “Toca Me” (Fragma), repetido ad nauseum. Uma luz intensa ofusca o público, mas ninguém ousa abandonar a sala. O cenário é agora uma boîte dançante, com bolas de espelhos, manequins sem cabeça, televisões avariadas, e outros fetiches mal resolvidos com os anos 90 por todo o lado. Os empregados de balcão são os Army of Lovers e os actores estão agora vestidos de palhaços McDonald’s. Entra CU’MIDAS, o rei-vai-nu, despido de ouro falso da cabeça aos pés, glitter dourado do Chinês na ponta dos dedos, lentes de contacto verde-Pisang Ambon, o cabelo pintado de uma cor irónica (tipo caju) e uma referência ornamental qualquer ao Terceiro Mundo (por exemplo: uma bindi no meio da testa). Pára no centro do palco, lambe o dedo indicador e levanta-o no ar, como que a descobrir o Norte pelo andar do vento. A seguir entra RODRIGO GARCIA com uma cabeça de porco verdadeira enfiada na sua própria cabeça. Mira o corpo coberto de ouro de CU’MIDAS e atira-lhe com um maço de dólares falsos. Ruído ensurdecedor, mudança drástica de luz. Começa o diálogo:

CU’MIDAS — Conjugas tudo no mais-que-perfeito (simples, composto ou mistura de ambos), transformas o infinitivo dos verbos em substantivos (sobretudo nos títulos) e substituis "cheio" por "pleno" para dar assim um ar latinizante à coisa. Comprova-se: escreves poo’esia!

RODRIGO GARCIA — Esse teu amor passional precisa de fundamentação conceptual…

CU’MIDAS (apontando para a porta do Bar 49) — A diferença entre dar o cv e dar o cu é quase nula!

RODRIGO GARCIA (cínico, comendo sushi) — Que nigiri que tu és!...

CU’MIDAS — Justamente! Eu cá nunca vi nenhuma árvore a morrer de pé. Proponho uma reforma estrutural de todas as metáforas de uso corrente.

RODRIGO GARCIA — Verosimilhança é o conceito que aplicas quando o que vês parece mesmo mentira!

CU’MIDAS — Ó meu grandessíssimo paneleirão! Mas tu já viste alguém a cozinhar com o “coração”? Ou com “amor”? (diz isto enquanto abana os dedos freneticamente, como que a tocar air piano)

RODRIGO GARCIA (atirando pó dourado ao ar) — Todos precisamos de um milagre… Em bolo bukake!

CU’MIDAS — Do caco, estúpido!

RODRIGO GARCIA (cantando) — Quando eu queria que dissesses sim, deste-me um não que até meteu medo! (repete uma vez)

CU’MIDAS (cantando mais alto, mão na anca) — Agora queres mas eu digo assim: chupa chupa chupa, chupa no dedo!

(A receita tradicional da Sopa Dourada do Convento de Santa Clara começa a passar em rodapé. Os dois actores, agora vestidos de Batman e Robin, desatam à chapada pós-dramática enquanto berram “Cala-te!” e “¡Cállate!” alternadamente. Cortina.)

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CARNE

O cenário é essa catedral do empreendedorismo artes-anal óleossiponense chamado A Padaria Portuguesa. Várias pessoas de calça arregaçada e sapato-sem-meia comem cenas com rúcula, mozzarella e tomate seco em pão que parece que foi polido, envernizado e retocado em Photoshop. As paredes estão cobertas de monos de plástico a imitar o rústico. Os empregados são todos licenciados em Design Gráfico: têm todos cara de Helvetica. Os clientes falam uma língua que não dominamos; deve ser €uropeu. Das colunas sai uma música dos Deolinda que desafia o ouvinte a não ir ao CCB. Entra a SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS, vestida com um vestido branco e dourado para os pobres, azul e preto para os que fingem a pobreza que deveras sentem. Traz um microfone-à-Madonna, parece que vai dar uma TED talk, mas fala como se fosse programadora cool’tural. Chama pelo ART’LETA, que entra a correr, mascarado de emergente:

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Ó cagão, anda cá! Estou a pensar abrir um restaurante chamado El Bullying. Que achas? (ri-se)

ART’LETA (com sotaque de todas as regiões do País, menos de Lisboa) — Ai, num sei… Ó Boz! Booooz!!! Puosso responder a iesta porgunta? Boz?!

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — És mesmo deficiente, pá! Não percebeste que a pergunta tinha rasteira? Estava a testar a tua endurance conceptual, ou seja, a tua stamina social, a ver se te aguentas de joelhos (a rezar!) até à próxima saison, ou se és dos que cospe no prato que come à primeira oportunidade!

ART’LETA (ajoelhando-se, para receber a medalha de ouro) — Prumiêto resistire à tentaçom de fazêre seija o que fuor cum inspiraçom maijómenos diréta na iárte cuntextuále, na crítica institucionále, e na relaçom do artista cu pudêre. Pêlo que precebi, issu bai sêre a ciêna. E iêu soue intuleránte a ciêna. Quándo istoue em ciêna, fico tuôdo inxádo, hiper-bêntilo e fico cum buntáde de faziêre audições…

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Pronto, já chega! Vai lá distribuir cartazes.

(Saem os dois, de braço dado, a caminho da Baixa. A palavra mais vezes repetida é “interessante”.)

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[excerto do texto FINGER FOOD™, publicado no número inaugural da revista RETINA, um projeto do Colectivo 111]